[30 de março de 1932] Quem tomar o trem da Estrada de Ferro Maricá, em Nitheroy, dentro de três ou quatro horas, terá alcançado as localidades de Sacco e Mombaça. São regiões maravilhosas como paisagem, à margem do oceano. Por ali existem populações felicíssimas, comidas de lepra.
Como se sabe atualmente, a hanseníase é uma doença infectocontagiosa curável. Seu principal meio de transmissão é por via aérea, geralmente mediante contato humano frequente e prolongado. Popularmente, a doença esteve associada à figura de Lázaro, vinculando-se ao imaginário religioso de forma bastante negativa. Conhecida como “lepra”, a hanseníase também foi popularmente chamada de “elefantíase dos gregos”, “morféia” e “mal de Lázaro”.
Durante a Idade Média, médicos como Bernard de Gordon acreditavam que a hanseníase era uma doença simultaneamente contagiosa e hereditária. Consideravam, ainda, que ela poderia decorrer de relações sexuais ilícitas ou mantidas em períodos de abstinência determinados pela Igreja, como a Quaresma, a Páscoa, o período menstrual ou durante a gravidez.1 De maneira geral, a hanseníase era considerada como uma manifestação do pecado e da perversão moral.
Tudo leva a crer que a doença tenha chegado ao Brasil com o colonizador europeu. Segundo Maurano (1950), “os indígenas não tinham em seus idiomas nenhuma palavra referente à lepra, ao contrário de todos os povos atingidos por essa moléstia”. De acordo com o padre Manoel da Nóbrega, o indígenas morriam na guerra ou “somente de velhice”.
Saquarema tem origem em uma das mais antigas ocupações do período colonial. Todavia, é impossível determinar com segurança quando o bacilo de Hansen chegou à região. Além disso, por se tratar de uma doença estigmatizada, os antigos moradores raramente abordam o assunto. Com o passar do tempo, o tema foi sendo gradualmente apagado da memória coletiva.
Expressões como "vale dos lázaros" e "maldição da Mombaça" caíram quase inteiramente no esquecimento. Em 1935, no entanto, o Diário da Noite trazia a seguinte notícia: "Onde os leprosos têm seu mundo à parte... Mombaça – pitoresca cidade fluminense que é refúgio das vítimas do mal de Hansen, voluntariamente segregadas do resto da população de Saquarema" (DIÁRIO DA NOITE, 1935).
Quatro anos antes, em 27 de fevereiro de 1931, o periódico A Batalha (RJ) publicara a carta de um morador local descrevendo a situação nos seguintes termos:
[...] um filho desta uberira e laboriosa terra de Saquarema traga até vos o grito de dor e de angustia de dezenas, centenas de brasileiros que habitam os distritos de Barra Nova, Boqueirão, Tapera e Mombaça, assolados pela terrível morphéa, ceifando vidas utilíssimas e preciosas, sem que, até hoje, os poderes competentes lançassem suas visitas para esta localidade.
Em trabalho publicado em 1916, Paes de Azevedo já indicada Saquarema como um dos focos da doença no Estado.2 Precisamente por isso, a região despertou o interesse do Centro Internacional de Leprologia (ARRUDA, 2015). A partir de 1930, iniciou-se uma campanha nacional no sentido de encontrar uma solução para conter a doença. Como política de Estado, adotou-se o isolamento compulsório em colônias agrícolas e leprosários. No caso do Estado do Rio de Janeiro, o problema concentrou-se na escolha de um local para a construção de um grande leprosário. Três cidades foram indicadas: Maricá, Itaboraí e Saquarema.
Maricá, ao que tudo indica, foi descartada em função de sua baixa altitude, que favorecia os alagamentos e a estagnação das águas (ARRUDA, 2015). Possivelmente, questões econômicas ligadas à produção de açúcar em Sampaio Correa influenciaram contrariamente a instalação do leprosário em terras tão próximas às plantações de cana e à usina de Usina Santa Luiza, inaugurada em 1936.
Simultaneamente, forças políticas em Itaboraí e Rio Bonito se organizaram contra a construção do leprosário em Venda das Pedras, Itaboraí. Apesar do amplo reconhecimento da necessidade de um destino para os doentes, ninguém queria ver sua cidade associada à lepra. Um dos argumentos contra a instalação do leprosário em Itaboraí consistia precisamente em apontar a Mombaça, em Saquarema, como o local mais propício para sua instalação e onde, segundo consta, "existem, em determinado ponto, completamente isolados, numerosos leprosos” (Diário da Noite, 1935).
Ainda em 1935, em 2 de novembro, o Jornal do Brasil publicou uma matéria intitulada “Um leprosário para o Estado do Rio”. Nela, lê-se: “Realmente, para quem conhece Mombaça e Saco, dois distritos de Saquarema, sabe que ali existe grande número de leprosos.”
E acrescenta:
Ora, se o governo do Estado do Rio volvesse os olhos para Mombaça e Saco, e ali criasse seu leprosário, consultaria (atenderia), evidentemente, os interesses de Saquarema, que assim teria uma forma de fiscalizar os leprosos que ali existem... E, igualmente, consultaria o interesse de Itaboraí, município acerca do qual nunca se ouviu dizer que possua um número considerável de morféticos.
Por fim, o leprosário foi construído em Itaboraí e inaugurado em 20 de agosto de 1938, com a presença do então presidente Getúlio Vargas e de seu ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema. Como se sabe, ao longo das décadas seguintes, a política de combate à hanseníase no Brasil consistiria na internação forçada dos portadores da doença, separando-os de suas famílias e, muitas vezes, de seus filhos recém-nascidos.
Na primeira década do século XX, a população de Saquarema estava em torno dos 20 mil habitantes. Atualmente, somos mais de 95 mil. Não se deve imaginar, pelo que foi dito até aqui, que todos aqueles que viviam na Mombaça eram vítimas da doença. Não há razões para se crer que o povoamento da Mombaça tenha começado com doentes de Hansen buscando refúgio. Entendemos que sua localização geográfica e sua baixa densidade populacional naturalmente levou a escolha do local como espaço de isolamento. A Mombaça é, em sua maior parte, cercada pelas águas da lagoa de Saquarema e, pela parte terrestre, distante das regiões mais habitadas.
Até a década de 1970, havia uma recusa de funcionários da prefeitura em prestar serviços na Mombaça. Lembro-me de um tio da Mombaça dizer que, em sua infância, não conheciam o leite, o que me pareceu estranho na época. Talvez a explicação esteja no fato de que os moradores da Mombaça se dedicavam quase exclusivamente à atividade da pesca e houvesse dificuldades de troca de mercadorias com moradores de outras regiões.
Posteriormente e diante da minha insistência, o velho parente resolveu, então, falar um pouco mais sobre a história — não sem reservas. Contou-me sobre um cemitério próprio para os “leprosos” muito antigo. Disse que, ainda criança, chegou ver pessoas que exibiam marcas da doença.
De acordo com D. Cora, moradora octogenária nascida em Saquarema, os habitantes da Vila de Saquarema e de Bacaxá recusavam tudo o que vinha da Mombaça: peixes, redes, qualquer coisa. Se alguém fosse até lá, relatou-me, a recomendação era queimar o calçado. O relato é compatível com o que nos diz uma reportagem do Jornal do Brasil de 1935:
Esses dois distritos mandam, às vezes, à sede do município, produtos da agricultura. E não raro, com verdadeiro horror, os saquaremenses têm a surpresa de verificar que se abasteceram de frutos ou de legumes vindos de regiões tão suspeitas...
No contexto do isolamento dos doentes não representa apenas uma medida sanitária, mas também uma forma de ordenar o espaço social, delimitando os lugares destinados aos considerados saudáveis e àqueles identificados como portadores de doenças. A situação dos doentes de Mombaça pode, assim, ser examinada à luz das relações entre saber médico, poder institucional e controle dos corpos, evidenciando como a gestão da doença também implica formas de exclusão e marginalização social (FOUCAULT, 1985). As colônias destinadas a conter os doentes funcionava como uma prisão perpétua. No período de vigência da politica de isolamento do governo Vargas, houve uma verdadeira caça aos leprosos.
João B. Neto, natural de Saquarema, recorda que, durante o período em que trabalhou na Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM), chegou a transportar moradores da Mombaça para o leprosário de Itaboraí. Segundo seu relato, em algumas ocasiões, os doentes permaneciam por horas no coreto da praça da Vila, aguardando o momento da partida. Muitos acreditavam que seriam levados apenas para a realização de exames. Entretanto, em decorrência da política de isolamento compulsório, jamais retornaram à Saquarema.
- "O homem é leproso ab utero ou depois do nascimento ab utero porque é engendrado durante as menstruações ou porque é filho de leproso, ou porque um leproso conheceu uma mulher grávida, e então a criança será leprosa, a lepra advém destas graves deficiências de geração. Depois do nascimento, talvez devido a um ar malévolo ou pestilento ou devido à ingestão de alimentos suspeitos (...) ou por se ter estado com leprosos." (Bernard de Gordon, O livro da Medicina [1305], apud BENIÁC, O medo da lepra). ↩︎
- Archivos Brasileiros de Medicina, v. VII, p. 197 ↩︎
Bibliografia
ARRUDA, Luiz Maurício de Abreu. “A nova Jericó maldita: um estudo sobre a colônia do Iguá em Itaboraí/RJ”. 2015. Dissertação (Mestrado em História) — Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2015.
BENIÁC, Françoise. O medo da lepra. In: LE GOFF, Jacques. As doenças têm história. Lisboa: Terramar, 1994.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
MAURANO, F. Tratado de Leprologia. 2. ed. Rio de Janeiro: M.E.S., 1950. v. 1.
PINTO, Paulo Gabriel Hilu da Rocha. O estigma do pecado: a lepra durante a Idade Média. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 5, n. 1, 1995.
SOUZA-ARAÚJO, H. A história da lepra no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1948. v. 1-3.
Periódicos
A Batalha. Ano 1931, edição 325.
Diário da Noite (RJ). Ano 1935, edição 2377.
Diário da Noite (RJ). Ano 1936, edição 2456.
Jornal do Brasil. Ano 1935, edição 262.